Jovem baiana é acusada injustamente de furto em loja de Fortaleza

Enquanto tatuadora negra é revistada e humilhada, influenciadora branca flagrada furtando loja de luxo em Salvador é tratada com discrição; Suiane, do caso em Fortaleza denuncia racismo

Publicado em 11/08/25 às 19h30

Foto: Suiane Souza / Reprodução redes sociais

A diferença de tratamento em casos semelhantes de furto reacende o debate sobre o racismo estrutural no Brasil. Enquanto a tatuadora baiana Suiane Souza, 27 anos, foi cercada, levada à força, revistada publicamente e exposta por funcionários de uma loja em Fortaleza, mesmo sem portar qualquer produto do estabelecimento, a influenciadora branca Priscila Ruas, flagrada furtando uma loja de bolsas de luxo em Salvador, teve sua identidade preservada, foi escoltada com discrição e não sofreu constrangimento público.

O episódio com Suiane ocorreu em uma sexta-feira, no dia 18 de julho, no centro de Fortaleza. Em temporada de trabalho na cidade, ela passeava sozinha quando, ao sair de uma loja de aviamento, percebeu que estava sendo seguida por três homens vestidos de preto e com o rosto coberto. Sem entender do que se tratava, foi abordada e levada de volta à loja Power LXB, onde foi acusada de furto.

Foto: Suiane sendo seguida após sair da loja Power LXB

Dentro do local, Suiane teve sua bolsa aberta por uma funcionária diante de clientes e funcionários. Mesmo após constatar que não havia qualquer produto da loja em sua posse, os seguranças insistiram na acusação, exibindo imagens de câmeras de segurança em que ela aparece manuseando alguns itens, mas sem guardar nada. Em vídeo gravado com o próprio celular, Suiane contesta: “Eu não estou me vendo colocar nada na bolsa. Você abriu minha bolsa, viu que não tem nada”.

Vídeo: Suiane gravou o momento em que o segurança mostrou as filmagens

Em outro momento, um dos seguranças – que cobre o rosto com um pano – aponta para a filmagem e insiste: “O que é isso aí, senhora?”. A voz da jovem, nervosa, é marcada por medo e indignação. “Sim, sou eu. Me mostre que estou colocando alguma coisa na bolsa. Não dá pra ver nada”, rebate.

O caso foi denunciado por Suiane nas redes sociais e gerou ampla repercussão. Ela classificou a abordagem como violenta, desproporcional e motivada por racismo. “Fui tratada como criminosa simplesmente por ser uma mulher preta em um espaço comercial. Nenhuma prova, nenhuma justificativa, só a suposição de que eu estava furtando”, declarou.

Loja admite erro, mas jovem contesta pedido de desculpas

Com a repercussão, o gerente da loja, Irlan Fidelis, divulgou um vídeo afirmando que não presenciou a abordagem, mas que considerou a conduta dos seguranças “inaceitável”. Ele alegou que o funcionário envolvido foi desligado. “A abordagem foi errada, desrespeitosa e contrária a todos os princípios que defendemos”, disse.

Suiane, no entanto, criticou a tentativa de minimizar o ocorrido como um episódio isolado. Segundo ela, uma terceira pessoa que a abordou na loja se apresentou como gerente da loja, o que contradiz a versão de que teria havido um equívoco em sua identificação. “Não foi confusão. Ele se apresentou como gerente. É muito conveniente dizer agora que foi um erro meu”, afirmou.

Ela registrou boletim de ocorrência e pretende acionar judicialmente a loja. “Não é só sobre mim. É sobre todas as pessoas negras que passam por isso e não têm como provar. Eu tive porque gravei. E se não tivesse?”, questiona.

A denúncia de Suiane ganha ainda mais força diante da forma como foi conduzido, dias depois, um caso real de furto protagonizado por uma mulher branca. Na segunda-feira 29 de julho, a influenciadora digital Priscila Ruas foi flagrada tentando sair de uma loja de bolsas de luxo no Shopping Paseo, em Salvador, com uma peça da Louis Vuitton e cobrindo o rosto para não ser identificada. Ela já havia sido pega anteriormente em situação semelhante, em fevereiro, no Salvador Shopping.

Apesar da reincidência, Priscila não foi submetida à mesma humilhação pública que Suiane. Foi escoltada por um policial militar sem violência ou exposição. Nas imagens, clientes pedem que a bolsa seja retirada de sua cabeça para identificá-la, mas o policial que a acompanha não cede. 

Em nota, o centro comercial confirmou o crime, mas tratou o caso com neutralidade, sem mencionar tentativa de ocultação da identidade ou reincidência da autora. Já a família de Priscila alega que a mesma é diagnosticada com esgotamento. 

A mãe da influenciadora, Fátima Ruas, declarou que os furtos recorrentes seriam consequência de um transtorno mental agravado pelo esgotamento profissional. Segundo ela, Priscila desenvolveu um quadro de burnout, o que teria provocado uma série de mudanças em seu comportamento. A declaração foi feita em entrevista ao portal Terra.

A disparidade nas abordagens expõe o viés racial das práticas de segurança em espaços comerciais no país. “O que se pune não é apenas o suposto ato, mas o corpo que o carrega”, comentou uma usuária nas redes sociais. 

O caso segue mobilizando opiniões e reforça a urgência de enfrentar o racismo institucionalizado em práticas cotidianas, especialmente no comércio e nas abordagens de segurança.

O que diz o escritório que de defesa do caso Suiane, ocorrido em fortaleza

O caso de Suiane está sendo acompanhado pelo Escritório de Direitos Humanos e Assessoria Jurídica Popular Dom Aloísio Lorscheider-EDHAL, da Câmara Municipal de Fortaleza. De acordo com o coordenador Marcos Giovani, o caso já foi encaminhado para a Delegacia de Combate ao Racismo e Crimes de Intolerância (DECRIM), onde o inquérito foi instaurado. 

“Ela já foi ouvida e algumas provas já foram recolhidas, inclusive as filmagens tanto dela, que fez com o celular, quanto as filmagens da loja”, explica. Segundo ele, “as pessoas que fizeram isso provavelmente serão responsabilizadas” na esfera criminal.

Além da responsabilização criminal, Marcos detalha outras frentes de atuação. 

“Encaminhei para que ela ingresse na justiça comum com uma ação de indenização por danos morais contra a loja”, disse, referindo-se ao trabalho de articulação com o advogado Paulo Vale, presidente da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da OAB. Ele também destaca a importância de acionar o Ministério Público: “Ao meu ver, cabe também uma ação de dano moral coletivo… Houve a ofensa não só a ela, mas a toda a raça negra”. E conclui: “A gente está acompanhando esse caso nessas três frentes: responsabilização criminal dos agressores e duas ações contra a loja – uma por dano moral individual e outra por dano moral coletivo”.

Fortaleza possui iniciativas de enfrentamento ao racismo

O caso de Suiane de Souza se enquadra como injúria racial (art. 140, §3º do Código Penal) e possivelmente como racismo institucional, já que a abordagem desenrolada pela equipe da loja Power LBX, na Rua Barão do Rio Branco, foi motivada por estereótipos raciais e resultou em constrangimento público. 

Embora não tenha sido encontrada mercadoria em sua bolsa, Suiane foi apresentada como suspeita, revistada e acusada injustamente, configurando também violação do Código de Defesa do Consumidor por tratamento discriminatório e dano moral. A conduta da empresa ainda contraria protocolos antirracistas firmados em Fortaleza, podendo ensejar responsabilização nas esferas penal, civil (individual e coletiva) e administrativa. 

Em Fortaleza, importantes acordos e iniciativas vêm sendo firmados para o enfrentamento ao racismo, especialmente nas relações de consumo e no âmbito institucional. Em agosto de 2024, o Ministério Público do Ceará (MPCE) assinou um protocolo de intenções com entidades como Fecomércio, Sesc, Acesu, ABIH e Sindpan, com foco no combate ao racismo estrutural em estabelecimentos comerciais. O acordo prevê ações como atendimento respeitoso, comunicação antirracista e qualificação de equipes. 

Além disso, durante a 4ª Conferência Municipal de Promoção da Igualdade Racial, em maio de 2025, a Prefeitura reforçou seu compromisso com a construção de políticas públicas antirracistas, incluindo o fortalecimento da Coordenação da Política de Promoção da Igualdade Racial (Coppir), a aprovação de um estatuto municipal da igualdade racial e a destinação de orçamento específico para ações de reparação. 

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