Com uma obra marcada por esperança, protesto e identidade negra, o artista levou o som da Jamaica ao mundo, influenciou o cinema, cultivou vínculos com Salvador e tornou-se símbolo para gerações
Publicado em 24/11/2025 às 19:50

Foto: Jimmy Cliff em concerto no palco Landaoudec durante o festival Bout du Monde em Crozon em Finistère (França). Crédito: Thesupermat – Own work/Wikimedia
Jimmy Cliff, um dos maiores nomes da história do reggae, faleceu aos 81 anos, segundo comunicado publicado por sua esposa, Latifa Chambers, e assinado também por seus filhos, Lilty e Aken. A notícia encerra um capítulo monumental da música mundial, mas deixa um legado que continua reverberando em ritmos, narrativas e movimentos culturais ao redor do globo.
Nascido James Chambers em 1944, em St. James, na Jamaica, Cliff cresceu em condições de pobreza extrema. Ainda menino, descobriu na música uma espécie de bússola: cantava na igreja local e, aos 14 anos, migrou para Kingston, onde adotou o sobrenome Cliff para simbolizar suas ambições. A partir dali, abriu caminho em uma Jamaica pulsante, marcada por efervescência cultural e tensões políticas, e logo se tornou uma voz impossível de ignorar.
Seu primeiro grande destaque veio com “Hurricane Hattie”, que o levou ao topo das paradas jamaicanas. Mas foi a partir do final dos anos 1960 que Cliff alcançou projeção internacional. O single “Wonderful World, Beautiful People” tornou-se um hino de positividade, enquanto “Vietnam”, lançado em 1970, consolidou seu nome como artista politicamente engajado. Bob Dylan chegou a descrevê-la como “a melhor canção de protesto já escrita”. Em entrevistas, Cliff refletia sobre essa dualidade: dizia que sua música nascia “da luta, temperada pela esperança”.
Seu repertório de “Many Rivers to Cross” a “You Can Get It If You Really Want”, virou trilha sonora de gerações. Ele também ficou mundialmente conhecido pelo cover de “I Can See Clearly Now”, de Johnny Nash, que se tornou um dos maiores sucessos globais de sua carreira.
No cinema, Cliff protagonizou The Harder They Come (1972), conhecido no Brasil como Balada Sangrenta. A atuação como o jovem rebelde Ivan Martin não apenas marcou o cinema jamaicano, mas foi decisiva para levar o reggae a públicos que antes não tinham acesso ao gênero. O filme se converteu em obra cult, abrindo caminhos para a internacionalização da cultura jamaicana.
O artista também criou laços profundos com o Brasil. Morou em Salvador, no bairro de Piatã, aproximou-se da cena cultural baiana e teve uma filha soteropolitana, a atriz e cantora Nabiyah Be, fruto da relação com a psicóloga Sônia Gomes. Entre os anos 1980 e 1990, Cliff marcou presença nas rádios brasileiras com hits como “Reggae Night” e “Rebel In Me”.
Ao longo da trajetória, foi reconhecido com prêmios como o Grammy e entrou para o Rock and Roll Hall of Fame, distinção reservada a artistas que transformaram a música mundial. Mesmo assim, Cliff mantinha uma postura humilde: dizia frequentemente que seu compromisso maior era com a verdade que colocava nas canções.
Para a juventude negra, sua passagem ecoa de maneira particular. Cliff foi uma figura que entendeu a música como ferramenta de autonomia, reivindicação e pertencimento. Suas composições conversam com as encruzilhadas da diáspora: falam sobre dor, mas também sobre transcendência; sobre desigualdade, mas também sobre sonhos que insistem em nascer.
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