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I'sis Almeida

Sócia-fundadora, diretora executiva, de jornalismo e projetos do Portal, I'sis é jornalista e bacharel interdisciplinar em artes formada pela Universidade Federal da Bahia, além de técnica em comunicação visual e pós graduanda em Direitos, Desigualdades e Governança Climática. É criadora e podcaster do Se Organiza, Bonita!

Ilustração:

Turma 1 - Soluções Na Prática

Uma turma potente e que vai se tornar multiplicadora de conhecimento!

Jornalismo de Soluções para Juventudes Negras: por que formar novas narrativas é inovação social?

Adaptado do artigo técnico entregue ao Edital Startup Nordeste (SEBRAE/FAPESB)

Publicado em 25/11/2025 às 06h22

Aula 1 – Turma 1 SNP, do Portal Black Mídia

Há muito tempo, a formação em jornalismo no Brasil opera como se pessoas negras fossem exceção – e essa ausência não é acidental. Ela é consequência direta de uma estrutura educacional que historicamente desautoriza saberes negros, marginaliza intelectuais periféricos e insiste em uma epistemologia que vê o branco como produtor universal de conhecimento. A isso, damos o nome de epistemicídio. O resultado dessa negligência é um sistema formativo que não prepara o país para enxergar a si mesmo e que, inevitavelmente, reproduz na mídia a mesma distorção de perspectiva, na qual a juventude negra aparece quase sempre como problema e quase nunca como proposição.

É por isso que afirmo, a partir da minha trajetória e da experiência do Portal Black Mídia com o Workshop “Soluções na Prática: Jornalismo Local e Digital como Ferramenta de Empoderamento da Juventude Negra”, que pensar a formação comunicacional da juventude negra não é apenas uma iniciativa pedagógica: é um gesto político, reparador e profundamente estratégico para o futuro do jornalismo no Brasil. E é fundamental dizer que não se trata de identitarismo, como alguns insistem em reduzir, mas da criação de condições mínimas para que jovens negros ocupem o lugar que sempre lhes foi negado: o de produtores legítimos de conhecimento, tecnologia e narrativa.

O “Soluções na Prática” está sendo executado dentro do conjunto de entregáveis vinculados ao Edital Startup Nordeste, iniciativa do SEBRAE em parceria com a FAPESB. Embora os recursos destinados às startups – no modelo de bolsas sócio-empreendedoras – não demandassem necessariamente ações voltadas à coletividade ou à inclusão produtiva, escolhemos seguir por esse caminho. Essa decisão nasce de um compromisso que acompanha o Portal Black Mídia desde sua formalização, em 2024: a convicção de que a combinação entre criatividade, tecnologia e propósito social é capaz de transformar realidades.

Pensado especialmente para estudantes do ensino médio de escolas públicas e para jovens nos primeiros semestres de jornalismo, o workshop foi construído para ser leve, dinâmico, colaborativo e totalmente acessível – e isso se refletiu no alcance: foram 45 inscrições e mais de 20 jovens que decidiram integrar a comunidade de aprendizagem do Portal.

O recorte da juventude inscrita revela um dado significativo: jovens negros estão profundamente conectados, politizados e interessados em experiências formativas que gerem impacto social.

A maioria tem entre 16 e 25 anos e reside majoritariamente no Nordeste, com forte presença de Salvador e Região Metropolitana, mas também houve inscritos das demais regiões do país, o que evidencia a demanda nacional por formações que dialoguem com identidade, território e comunicação.

As expectativas, quando analisadas em conjunto, constroem um quadro coerente com o propósito do Portal Black Mídia: os participantes desejam dominar ferramentas digitais, compreender o jornalismo na prática, fortalecer suas narrativas enquanto pessoas negras, aprender audiovisual, explorar redes sociais, experimentar design e prototipagem e praticar uma comunicação antirracista que produza impacto e responsabilidade. O interesse explícito em jornalismo de soluções mostra ainda que há um desejo concreto de superar narrativas estigmatizantes e de produzir reportagens que reflitam a realidade da juventude negra a partir de novas lentes.

Quando Sueli Carneiro afirma que o negro “jamais foi visto como sujeito da ciência”, ela descreve com precisão o que ainda observamos nas universidades brasileiras. Formei-me em jornalismo na UFBA tendo apenas uma professora negra ao longo de quatro anos de curso – um dado que não pode ser tratado como exceção.

Segundo o INEP, apenas 21% dos docentes universitários são negros. Esse apagamento na formação produz apagamentos na mídia e cria um ciclo que se retroalimenta, no qual pessoas negras são sistematicamente excluídas da produção, da análise e da interpretação da própria realidade brasileira.

Nesse cenário, o jornalismo de soluções apresenta um caminho necessário. Ele questiona a lógica das narrativas de morte e rompe com a pedagogia do desespero que marca a forma como a juventude negra costuma aparecer nas manchetes. Em vez de se limitar ao problema, investiga respostas, analisa contextos, examina evidências e identifica iniciativas que já funcionam nos territórios. Essa abordagem não suaviza a dor histórica; pelo contrário, aprofunda o diagnóstico ao demonstrar onde e por que determinadas soluções funcionam, permitindo que sejam replicadas.

Para jovens negros, costuma ser a primeira vez que se veem como protagonistas de narrativas que os reconhecem para além da violência.

Ao criar uma formação gratuita voltada à juventude negra, sabíamos que não estávamos apenas oferecendo um curso. Estávamos intervindo em um ecossistema que normalizou a ausência negra nas redações e na comunicação. Os resultados já estão sendo expressivos: todas as avaliações registraram nota máxima. E mais importante do que isso, os estudantes identificaram nas instrutoras e instrutores -jornalistas, cineastas, pesquisadoras – aquilo que raramente viram na escola ou na universidade: um espelho possível.

A principal lição do workshop é que, quando jovens negros têm acesso a espaços de formação conduzidos por profissionais negros, com rigor técnico, metodologias acessíveis e linguagem que reconhece suas identidades, eles permanecem, produzem e transformam. Os dados confirmam a existência de uma demanda reprimida por formações que unam técnica jornalística, vivência periférica, consciência racial e ferramentas digitais. No Brasil, infelizmente, esse tipo de iniciativa ainda é exceção especialmente nos espaços formais de educação.

É por isso que defendo que experiências como o “Soluções na Prática” precisam se tornar política pública. O Estado brasileiro nunca garantiu equidade racial no acesso à formação em comunicação, e a mídia tradicional continua falhando ao representar de maneira digna as populações negras. J

ovens negros seguem sub-representados nos cursos de jornalismo, nos estágios, nas redações e nos cargos de liderança. E quando conseguimos oferecer ferramentas técnicas a essa juventude, o impacto ultrapassa o campo da comunicação: ele se traduz em autoestima, cidadania, empregabilidade, empreendedorismo e fortalecimento comunitário.

A juventude negra não precisa que falem por ela; precisa que lhe deem condições para falar.

Ao final da primeira etapa da edição da primeira turma do “Soluções na Prática”, ficou evidente que estamos diante de uma oportunidade histórica: formar comunicadores negros capazes de produzir narrativas que enfrentam desigualdades ao mesmo tempo em que constroem futuros possíveis.

Não se trata de preencher lacunas; trata-se de reconstruir o próprio fundamento da comunicação brasileira. O país que se orgulha de sua diversidade não pode seguir com redações que não refletem sua maioria. E o jornalismo que pretende ser relevante no século XXI não pode ignorar a potência criativa, intelectual e política das juventudes negras.

Formá-las não é caridade. É estratégia. É responsabilidade. É futuro!

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