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Reportagem elaborada pela turma do Workshop "Soluções na Prática: Jornalismo Local e Digital como Ferramenta de Empoderamento da Juventude Negra", realizado em 2025 pelo PBM, composta majoritariamente por jovens negros entre 16 e 25 anos, estudantes do ensino médio de escolas públicas ou dos primeiros semestres de jornalismo.
Com o aumento dos preços e a transformação das corridas de rua, iniciativas sociais surgem para resgatar a atividade esportiva como direito coletivo
Por: Lorena Conceição, Izabela Prazeres e Felipe Dias
Publicado em 05/03/2026

Reprodução: @Collectiverunners
A corrida de rua é um esporte secular, mas vem ganhando ainda mais popularidade em todo o mundo nos últimos anos. Em 2024, a modalidade foi a mais praticada globalmente entre usuários do Strava, de acordo com o Relatório Anual sobre Tendências de Esportes divulgado pela plataforma – considerada a maior ferramenta de monitoramento esportivo do planeta.
No Brasil, cerca de 19 milhões de atletas registraram atividades de corrida no aplicativo, número que coloca o país como o segundo com maior volume de praticantes da modalidade. Ainda assim, a expansão do esporte levanta um impasse: o crescimento do interesse tem sido impulsionado, em parte, pela busca por status, visibilidade e pertencimento social, e não necessariamente pelos benefícios da corrida para a saúde, o bem-estar e a qualidade de vida de quem corre.
Preço das inscrições como barreira
As corridas de rua acontecem, em geral, em vias públicas temporariamente fechadas ou parcialmente compartilhadas com o trânsito, com percursos que variam entre 5 km, 10 km, meia maratona e maratona. Os eventos costumam exigir inscrição prévia e oferecem estrutura básica como cronometragem eletrônica, pontos de hidratação, apoio médico e sinalização ao longo do trajeto.
Em contrapartida, os participantes recebem um kit que normalmente inclui camiseta, número de peito e medalha. Organizadas por empresas privadas, federações, marcas esportivas ou poder público, essas provas mobilizam patrocinadores e voluntários. Apesar de acontecerem na rua – um espaço coletivo -, o acesso às corridas organizadas depende cada vez mais do pagamento das taxas de inscrição.
Em fóruns online de corredores, o aumento dos preços das provas de rua aparece como uma queixa recorrente. Um dos participantes resume a sensação de exclusão ao afirmar: “dificilmente acho alguma por 100 ou menos, isso quando não esgotam rapidamente. Esse ano ainda não fiz nenhuma prova por conta do valor”. Para muitos, o encarecimento está ligado ao crescimento acelerado da modalidade e à lógica de mercado que passou a orientar os eventos, com inscrições por lotes e preços que sobem conforme a demanda.
Além do custo elevado, corredores também questionam a relação entre o valor pago e o que é oferecido pelas organizações. Um comentário aponta que “os preços mais que dobraram desde a minha última prova, sem contar que agora tem opção ‘baixo custo’ que nem camiseta vem, e mesmo assim passa de 100 reais”.
As críticas incluem kits considerados insuficientes, falhas na estrutura e a percepção de que a corrida de rua vem se afastando de seu caráter popular, tornando a participação em provas oficiais cada vez mais restrita a quem pode pagar.
Além disso, a modalidade incorporou um verdadeiro dress code – modo de se vestir. Óculos esportivos, smartwatch, tênis específicos, pré-treinos, isotônicos e o monitoramento constante da evolução em aplicativos como Adidas Running, Nike Run Club e o próprio Strava se tornaram parte do cotidiano dos corredores. Com isso, correr deixou de ser apenas uma atividade física cotidiana e passou a envolver métricas, comparações e exposição de desempenho.
Na Bahia, participar de uma corrida oficial pode custar entre R$ 229 e R$ 429, afastando a população de menor renda e distanciando a prática de sua origem popular.
É pensando nisso que em Salvador, coletivos como a Collective Runners e a SBN Running propõem outra forma de viver a corrida. Com treinos gratuitos e abertos, os grupos promovem bem-estar, representatividade e senso de comunidade, desafiando a lógica excludente que vem se consolidando em torno da modalidade. A proposta, segundo Fábio Silva, um dos idealizadores do Collective Runners, é democratizar o acesso ao esporte.

Reprodução: @Collectiverunners
“Nosso principal intuito é democratizar o esporte a todos os tipos de pessoas, todas as raças, todos os tipos de corpos. Têm muita gente que se acha insuficiente, não se acha pertencente ao esporte. Porque às vezes muita gente se sente inibida em ir pra orla correr, por mais que seja um espaço legal e confortável. A gente quer tirar um pouco disso, sabe? Da elite da orla”, diz Silva.
Para Fábio, a lógica de mercado tem se sobreposto ao sentido comunitário da corrida: “Cada vez mais a gente vê marcas e empresas usando a corrida como forma de ganhar dinheiro, promovendo eventos muito mais voltados para o financeiro do que para o movimento em si. Somos um pouco resistentes a isso”, afirma.
Em contraponto ao atual modelo, os coletivos constroem ambientes de acolhimento, sobretudo para quem está começando ou retomando a prática esportiva. Sem cobrança por desempenho, ritmo ou equipamentos específicos, a experiência se afasta da lógica competitiva que marca muitas provas oficiais e devolve à corrida seu caráter cotidiano e acessível
Nesse contexto, até as definições dos percursos também carregam um posicionamento político.
Ao correr fora da orla e dos cartões-postais, os grupos reafirmam que ruas, praças e avenidas das periferias são espaços legítimos de lazer, esporte e saúde. A prática, nesse contexto, se mistura à ocupação do território e à afirmação de pertencimento.
Supervisão: I’sis Almeida DRT 7568/BA
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