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Reportagem elaborada pela turma do Workshop "Soluções na Prática: Jornalismo Local e Digital como Ferramenta de Empoderamento da Juventude Negra", realizado em 2025 pelo PBM, composta majoritariamente por jovens negros entre 16 e 25 anos, estudantes do ensino médio de escolas públicas ou dos primeiros semestres de jornalismo.
Inspirada no orixá Oxóssi, HQ mostra que narrativas culturais podem promover respeito, diálogo e pertencimento entre jovens da periferi
Por: Manoela Maria Ferreira dos Santos
Publicado em 05/03/2026

Pedro T. O. S. Ribeiro e Chao Gizan, autores de Oxóssi. Foto: Humberto Siciliano
Apesar de a Constituição Brasileira de 1988 reafirmar a liberdade religiosa e o caráter laico do Estado, casos de intolerância religiosa seguem presentes em todo o país, principalmente contra templos e praticantes de religiões de matriz africana.
Prova disso são os números divulgados pelo painel interativo da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos. Em 2024, as pessoas mais atingidas pelas violações foram adeptas da umbanda (151) e do candomblé (117). Em seguida aparecem evangélicos (88), católicos (53), espíritas (36), outras religiosidades afro-brasileiras (21), islamismo (6) e judaísmo (2). Em 1.842 denúncias não houve indicação da religião.
Mesmo sendo conhecida nacional e internacionalmente pela diversidade religiosa e pelo sincretismo, a Bahia aparece em 4º lugar entre as unidades da federação com maior número de denúncias (175), ficando atrás apenas de São Paulo (618), Rio de Janeiro (499) e Minas Gerais (205).
Rei das matas contra a intolerância
Nesse cenário, a arte se torna uma ferramenta potente para reduzir preconceitos. E é justamente na Bahia, mais especificamente em Salvador, que nasce o quadrinho Oxóssi, que acompanha a história de Willian e busca desconstruir estereótipos sobre religiões afro-brasileiras, apresentando os orixás de forma digna, heroica e acessível.
Com texto de Pedro T. O. S. Ribeiro e arte de Chao Gizan, Oxóssi dialoga diretamente com jovens leitores e com o contexto social da capital baiana. O autor afirma que a violência e a intolerância têm raízes no medo e na falta de conhecimento. “Acredito que a violência e a intolerância vêm do medo, e o medo vem da ignorância. Oxóssi é uma tentativa singela de popularizar ideias, preceitos e questões culturais e religiosas que envolvem não só as religiões afro-brasileiras, mas também as periferias”, diz Pedro.
O projeto nasceu a partir do livro Heróis Tupiniquins, em que doze escritores se uniram para criar heróis inspirados na cultura brasileira. Pedro escreveu sobre Oxóssi e conheceu Chao Gizan, que ilustrou seu conto. A parceria evoluiu naturalmente: “Chao se apaixonou pela história e, numa transmissão de pensamentos, decidimos produzir o quadrinho”, conta. Hoje a publicação já alcança o sexto volume.

Primeira edição do quadrinho Oxóssi. Arquivo pessoal
A saga de William
Na HQ, Willian é um jovem de comunidade que, após sobreviver a um atentado, mais um episódio de violência em Salvador, recebe poderes dos orixás e se torna um arauto. A trama acompanha seu cotidiano, dividido entre responsabilidades pessoais e os desafios de ser um herói em uma comunidade marginalizada, onde a esperança resiste apesar da criminalidade e do medo.

Trecho da revista Oxóssi. Arquivo pessoal
Segundo Pedro, muitos jovens se reconhecem nos personagens, como Willian, Cida e Pedrinha. “A religiosidade deles também. A verdade é que todo mundo tem um parente do axé, assim como tem um parente cristão ou de qualquer outra religião”, afirma. Para ele, a jornada de Willian reflete a experiência de “sobrevivência” compartilhada por muitos moradores de periferia: “Seja quando somos atacados por vestir branco na sexta-feira, seja quando voltamos pra casa e o dono da boca fez um toque de recolher… nos cabe resistir e sobreviver, não é mesmo?”
Embora o quadrinho dialogue com o combate à intolerância, Pedro reforça que seu objetivo inicial era mostrar a força da ancestralidade. “Oxóssi sempre teve o objetivo simples de mostrar que as religiões afro-brasileiras lidam mais com ancestralidade do que com fé. Mostrar que aqueles que amamos, ou que aqueles que amamos amaram, são maiores que o ódio plantado por quem não compreende o assunto. Nunca pensei como ferramenta de enfrentamento, mas como identificação.”
O papel da arte no combate à intolerância
Para Pedro, a arte pode inspirar movimentos, mas quem transforma a realidade são as pessoas. Ele lembra que figuras como Pierre Verger, Jorge Amado e Dorival Caymmi ajudaram a mudar percepções sobre a Bahia e as religiões afro-brasileiras, não apenas pela arte em si, mas porque suas obras mobilizaram debates. “Oxóssi está aí… e se isso vai diminuir preconceitos, discriminações e ódio, só depende de quem apoiar o projeto”, afirma.
O autor explica que seu olhar sensível sobre as religiões afro-brasileiras também vem de sua vivência como guia turístico e das contribuições de praticantes, inclusive sua esposa. “Apesar de agnóstico, sempre falei sobre nossa cultura e sobre a religião afro-brasileira para gente de vários lugares. Com apoio de pais de santo e outras pessoas, consegui construir essa mitologia que o quadrinho utiliza.”
Pedro deseja expandir a história e já planeja novos arcos narrativos. “Vamos ver o que o primeiro arco vai provocar, quem vai abraçar esse jovem de periferia e seu orixá protetor. Mas já escrevi mais três arcos… só depende de Chao ter energia pra seguir na empreitada!”, brinca.
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