Publicado em 15/01/2026 às 02:37

Foto Portal Black Mídia
Em 2025, o Portal Black Mídia, ainda identificado como Portal Black Fem, realizou uma cobertura especial da Lavagem do Bonfim, uma das mais tradicionais manifestações religiosas e culturais de Salvador, marcada pela fé, pela ancestralidade e pela resistência do povo negro ao longo de mais de dois séculos.
A Lavagem do Bonfim acontece anualmente na quinta-feira que antecede o segundo domingo após o Dia de Reis, reunindo milhares de pessoas vestidas de branco em uma procissão que parte da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, no bairro do Comércio, e segue até a Colina Sagrada, onde está localizada a Basílica do Senhor do Bonfim. O percurso, de cerca de oito quilômetros, transforma as ruas da cidade em um grande espaço de celebração coletiva, atravessado por cantos, rezas, gestos de devoção e expressões culturais afro-baianas.
A origem da devoção ao Senhor do Bonfim remonta ao século XVIII e está associada à chegada da imagem de Cristo à Bahia como pagamento de uma promessa feita por um capitão português após sobreviver a uma tempestade em alto-mar. A construção da igreja, concluída em meados de 1754, consolidou o local como um dos principais centros de peregrinação religiosa do estado. Já a prática da lavagem da escadaria surgiu alguns anos depois, quando pessoas escravizadas eram responsáveis pela limpeza do templo antes das festividades religiosas.
Com o passar do tempo, esse ato ganhou novos significados e se transformou em um ritual público carregado de simbolismo e identidade afro-brasileira.
Hoje, a presença das baianas com seus trajes tradicionais, carregando água de cheiro preparada com ervas e flores, é considerada por especialistas como um dos elementos mais emblemáticos e importantes da festa. A Lavagem do Bonfim também se tornou um dos maiores exemplos de sincretismo religioso no Brasil, ao associar a figura do Senhor do Bonfim a Oxalá, orixá ligado à criação e à paz nas religiões de matriz africana. A predominância do branco nas roupas e a atmosfera de reverência reforçam essa conexão espiritual.
Durante a cobertura realizada em 2025, a jornalista Cristiele França destacou a dimensão histórica, política e simbólica da celebração. “Todos os anos eu sempre vinha com minha mãe acompanhando ela a primeira vez que eu prestigio essa grande lavagem, essa grande construção, essa grande resistência porque nós temos que estar aqui quanto mulher negra quanto mulher de Axé resistindo”, afirmou. Ela também ressaltou o sentido coletivo do ritual ao lembrar que “Todos os anos a lavagem do Bonfim celebra a força, a resistência e a fé das pessoas”.
A continuidade da tradição ao longo de quase três séculos também foi apontada como um aspecto central da festa. Para o analista de sistemas Paulo Cesar, a permanência da Lavagem do Bonfim ao longo de cerca de 280 anos reforça a importância da transmissão de saberes entre gerações. “Eu acho que a juventude tem que aprender com quem está convivendo com isso hoje. Se essa tradição já tem 280 anos, algum motivo tem para se manter forte desse jeito”, disse. Segundo ele, preservar a celebração é reconhecer seu valor histórico e cultural, já que “a gente tem que ajudar a manter essa tradição porque me parece só tem coisas boas é a guarda Imortal da Bahia dessa”.
Além do caráter religioso, a Lavagem do Bonfim se consolidou como um evento social e cultural de grande impacto, reunindo moradores, lideranças religiosas, artistas, movimentos sociais e turistas. Ao longo do tempo, elementos como as fitinhas do Senhor do Bonfim, criadas no início do século XIX, passaram a simbolizar pedidos de proteção e esperança, ampliando ainda mais o alcance simbólico da festa.
Assista o vídeo:
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